RARA MAQUINALIDADE

Eram pontuais seis horas da manhã informava o relógio do smartphone seminovo, a luz solar refletida na janela do quarto mostrava que o recinto era compartilhado, havia duas camas, uma minha e a outra da mulher mais importante da minha vida, por favor, não pensem que seria esposa ou namorada. Refiro-me a mulher que me trouxe a este mundo, minha genetriz. Devo-lhes dizer algo, os compartimentos restantes pertenciam a ela, vocês podem até imaginar, enfim… naquele momento senti incômodos calafrios nos pés e nas mãos, mesmo estando protegido pelos lençóis de cama, talvez fossem termicamente mambembes, o vento era definitiva e sobremaneira gélido provocando vertiginosamente umas desagradáveis cólicas agoniantes, comprometendo músculos, pernas, articulações, quadris, ossos, fora os característicos, todavia perturbadores desassossegos momentâneos, especificamente falando da então desconfortante temperatura ambiente. Caros leitores, fui acordado pela melodia convidativa do bem-te-vi, situação bacana, curiosamente espirituosa, as breves cantorias desse simpaticíssimo passarinho nas primeiras horas matinais me despertavam feito sineta litúrgica tresloucada, tal circunstância, digamos, poderia ser classificada como singela cena rotineira, oportunidade reconfortadora que gradativamente tranquilizava meus variadíssimos sentimentos do dia a dia, cuja cotidianidade é malmente substancializada. Quanto ao assunto referente sobre quem teria posse justa dos repartimentos residenciais daquela moradia, sejamos sinceros, necessito reiterar nessa matéria controversa, a propriedade dos cômodos, só uma coisa, pois lenga-lenga serve apenas em um momento: grandes histórias engrandecem pequenas verdades, tudo aquilo pertence à minha queridíssima mãe, recordo que antes mal conseguia tratá-la pelo verbete familial, usando o vocábulo merecido: MÃE. Lastimavelmente acabo me lembrando da curiosidade constrangedora de recordar o hábito que durante a pueril meninice chamava mamãe de tia, talvez por ter sido boa parte do tempo domesticamente disciplinado pelas minhas tias queridas, a nuance logicamente raciocinada torna harmonioso julgar que seja a melhor resposta, dedução habilmente satisfatória para mim. Eureca! Descobri um X da questão? Nem sei direito… ah…gente, porque vivo me justificando aos outros, vício psíquico, caramba! toda vez comento fofocas familiares, ponho logo a língua nos dentes, cruzes! Desgraça! Tenha santa paciência! Aperreamento digerível! Imaturidade? Falta-me saber a regra do bom viver? Esses detalhes psicológicos estão fora do meu alcance, é o que humildemente penso. Hoje nem sequer consigo desfrutar sozinho uns bons minutinhos pacatos, há instantes quando preciso desfadigar deitado na cama, ler meus queridos livros, a porta se abre, talvez seja superproteção intransponível, várias situações; Puxa Vida! Teimosa vigilância, mas qual seria a causa? Medo? Ouço recorrentemente que só tenho uma protetora, me pergunto, às vezes, e se perdê-la? Devo bolar um plano B? Deus ajuda, Nossa Senhora idem. São quarenta anos, quanto ao diferencial entre nossas idades, ela alcançou, nesta época da sua vida, os seus sessenta e nove de idade, conseguiu se preservar das consequências surgidas pela duradoura maternidade solitária, embora recebendo subsídios financeiros com origens fraternais. Desgraçadamente, mesmo vivendo em uma sociedade dita patriarcal, sob hegemonia decerto masculina, havendo notório flagelo coletivo sobre a admissão da paternidade nessas brasileiradas varonis e com muita razão, a justiça civil, representada pelas burocracias jurídicas, dá preferência cartorária nos documentos governamentais, órgãos públicos e cadastros nacionais ao nome materno em detrimento do paterno, importantes dados cívicos registrados, faz sentido, aliás, implementar tal fundamento, ele só reforça o quanto há de Marias colocando a mão na massa Brasil adentro, caso comparadas com as Amélias sem vaidades tão exaltadas por Ataulfo Alves em sua canção homonimamente lembrada nesse momento em que escrevo, peço desculpas ao finado compositor sambista, pois declaro simpatia ou melhor dizendo, predileções estéticas, pelas Marias, mencionando discretamente as ditas cidadãs. Mediante os cantos de Milton Nascimento, ele brindou a arte musical brasileira homenageando Maria, repetindo o nome dela mesma no refrão da letra, transformando essa repetição como sendo impulso de euforia na composição feita em parceria com Fernando Brant, compositores radicados na riquíssima região sudeste, São Pulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, entre poucas unidades federativas, formadoras daquele território ao qual alguns brasileiros chamam-no de sudestino.

 Volta e meia me pego imaginando que as mães têm certa dívida de gratidão com o culto mariano. Essa prática, de raiz cristã, robusteceu o papel das mulheres, conferindo atributos que lhes dessem respeito para com os homens, porém, intrigantemente, as feministas pouco se manifestam no tocante ao marianismo e sua simbologia bastante poderosa. Deixemos esse detalhe aos intocáveis acadêmicos na pompa do fardão, alguns deles conspurcam reflexões acadêmicas produzidas em cursos de humanidades, fazendo proselitismo azucrinante, ostentando honrarias bacharelescas. Doem-me tais observações, reflito ocasionalmente se devo comemorar guardando comigo mesmo um canudo de papel dentro da gaveta feita de mogno antigo, material que dá forma ao guarda-roupa localizado no quarto de cima, onde durmo. Sei de uma coisa, ainda deveria existir aquele documento, não porque eu quisesse incorporar o Bom Burguês de Martinho da Vila, nós dois somos definitivamente diferentes, o rapaz da música preferiu a faculdade particular diz a letra, quis eu uma universidade pública, chamavam ainda o pobre sujeito de burguês, enquanto o próprio dizia de si mesmo:” não passo de um pobre coitado.” Eis uma reles semelhança. Será? Precisa-se dosar as comparações, primeiro que tenho diploma universitário, agora evidentemente, ele também possui uma certificação superior, a diferença está nas histórias de vida, cabe a mim contar as que ficaram, tantos tempos, salvaguardados nas minhas memórias, o burguesinho mal compreendido ficava na mira das maledicências alheias, situação bem corriqueira nas vizinhanças brasileiras, peço encarecidamente, tolas banalidades fiquem para lá! Arre! A verdade é que um diploma de ensino superior não me trouxe alguma tranquilidade financeira, algum conforto material prolongado. Seria pedir demais? Parece que devo tomar decisões desconsiderando, pela primeira vez, o que minha mãe pensa acerca disso, caberia aos meus pensamentos nessas conjunturas lembrar que a vida frustra quem sempre esquece de apagar a luz. Continuo sendo um letrólogo distante dos aprendizes de línguas, ouvindo as canções que tranquilizam meus raciocínios nervosos. Digo aos curiosos querendo saber do meu estado médico, como resposta para uma única pergunta feita por curiosidade deles, quando posso detectar que seja algo transparecendo boas intenções, ideia religiosamente bem-aventurada manifestando vibrações positivas resumidas num brevíssimo questionamento:  Estás bem? Respondia positivamente, era o que fazia, embora estivesse ficando mentalmente epiléptico e fisicamente tenso. Luzes coloridas iluminavam horizontes oculares escancarados pela minha visão municiada pelos olhares manifestados no semblante que exibia nas interações coletivas. Aura visual, escotoma cintilante, pouco posso explicar tamanhas singularidades, fomentando determinadas manifestações de certo cunho neurológico. Lewis Carroll sofreu dolorosas crises enxaquecosas, todo esse contexto fizeram delas realisticamente compreensíveis, situação representada em sua genialidade ficcional, uns foram acometidos pela síndrome de Alice no País das Maravilhas ou síndrome de Todd, convulsionando, enxergando distorções visuais, criando raiva contra tudo. Nunca fui assim! Quero tão somente viver. Fazer amigos! Amizade principal é a família, nem sequer quero ter um milhão de amigos, Data Vênia a Roberto Carlos, afinal ouvir a voz desse reverenciado “rei” é uma estimulação acalentadora aos ouvidos sensíveis de Leide Vânia, lhe gerando verdadeiras emoções, permitindo a ela demonstrar graciosos contentamentos, satisfação perceptivelmente tangível, bastava ouvir e amar as canções dele em detalhes. Oba!

Preparava-me durante os despertantes momentos matutinos, travando uma batalha na qual conseguisse superar os bocejos que revelavam minha nítida fadiga perante os raios solares, falava serenamente meu nome, repetindo ele toda hora, dando leves tapas no rosto meio branquinho, a despeito de haver nele certas feições amorenadas que casualmente me faziam sentir um caboclo ou caboco, expressão popular usada em linguajares amazônidas, consagrada nos estudos de Câmara Cascudo, contemporâneo do Sagarana mineiro, mas chega dessas divagações inoportunas, preciso me concentrar, — Zédu, Zédu, vamos! Vamos, sim, desperte, desperte! Mamãe sabia gerir algumas horinhas quando fossem necessárias para conseguir levantar habilidosamente a fervura do café, a mim era mais preferível tomar café com leite, degustando unicamente duas torradas, refeição matinal definida, recebi uma rigorosa bronca, chamada de atenção, — sejamos verdadeiros. Independente disso, foi um gesto útil para puxar conversa. Sem esforço algum já dialogávamos, ela brigava comigo, ficava muito preocupada:

— Menino! Vais comer só isso?!

— Sim, essa quantidade é satisfatória, falei de forma sucinta, procurava obter uma anuência complacente dela.

 Nós dois compartilhávamos afazeres lado a lado desde meus tenros nove anos, tocávamos juntos aquela singelíssima moradia. Foram levantados três quartos, um em cima, mamãe e eu compartilhávamos, os outros dois dormitórios estavam embaixo, cujas acomodações modestas ficavam próximas umas das outras. Todas elas, com a exceção do quarto da diarista, recebiam arrumação exatamente igual, resumindo-se a cama, a janela, ao guarda-roupa baixo e ao discreto criado-mudo.

Motivação alguma havia para qualquer pessoa duvidar dos cuidados primorosos implementados pela zelosa Dona Nadi, doméstica parceira, mulher única, quase membro da nossa família, agregada devidamente protegida, que dava banhos regulares com o regador nos cercadinhos das nossas verdosas hortazinhas. Adubos naturais, desde esterco até sementinhas garantiam a fertilidade notável da terra e a qualidade invejável do saudável hortifrúti ali cultivado. Seguramente que muitas companhias agrícolas nunca cuidariam tão bem dos seus produtos quanto a Dona Nadi tratava os dela.

Suas arrumações impressionavam positivamente os olhares alheios que as observassem, começando pela porta de madeira maciça com maçaneta minúscula, ao entrar víamos a cama posicionada à esquerda, a cabeceira junto da parede branca e o colchão pequeno revestido por colcha curta, porém confortável. Janela envidraçada ao fundo, coberta com cortinas verdes, permitindo ventilação reconfortante. Escrivaninha de mogno antigo, três gavetas grandes abaixo e quatro gavetinhas dentro, grandemente espaçosa que ocupava toda a lateral direita das paredes. Na lateral esquerda e pertinho da cama existia uma mesinha cheia de plantinhas em pequenos vasos adornando o lugar. Esses lindos vasinhos simbolizavam o amor sincero que Dona Nadi nutria em relação à natureza. Chamava-os de filhinhos, molhava as raízes das plantas pequeninas, conversava com elas ao se sentir sozinha. Havia tomado gosto pelos vegetais, essa última declarava honradamente que era uma Cabocla, sendo filha da mata, portanto especialista no que concerne à flora existente. Aprendera com o pai, um capataz branquelo de olhos claros e a mãe, uma indígena alfabetizada na língua portuguesa, eis o bê-á-bá que regia a conduta no mundo silvestre.

Vivíamos em Xistopólis, se tratava de um lugar no qual residiam trabalhadores que prestavam serviços num contexto do setor secundário, se assemelhando a tantos outros municípios pacatos no planeta, uma cidade pouco povoada, parcamente desenvolvida, estando envolta por matas fechadas quase inexploradas. Além disso, era cortada por um rio, o famigerado Rio de um lado só, cruzando a cidade inteira, ninguém sabia praticamente nada a respeito dele, não se conhecia a nascente, nem o leito, nem a foz, mas suas águas cristalinas, brilhantes e calmas abasteciam o povoado inteiro, embora fosse poluído pelos resíduos da fábrica do mandachuva, senhor Xisto, ricaço que pouco dava as suas caras na cidade homenageada com seu próprio nome, ele tinha controle definitivo sob essa fabricação realizada em Xistopólis, a prática manufatureira gerava proventos pecuniários satisfatoriamente lucrativos aos bolsos do magnata que enriquecia em demasia, até mesmo naquela tal bolsa que fica em são Paulo. Navegadores e moradores próximos aos arredores ficavam temerosos ao usarem a água apenas para satisfazer umas necessidades alimentícias. No centro da cidade a paisagem natural tampouco manifestava laivos perceptíveis de progresso econômico. Ali transitavam numerosas carroças, todavia, automóveis, conforme dissemos, inexistiam. Cabe salientar que estava localizada numa porção de arredores insuficientemente povoáveis, distantes de Belém.

Confesso-lhes: a localidade em evidência é uma lonjura desgastante, ficava nos cafundós da Amazônia, seriam espaços inacessíveis para carros ou outros meios de transporte, pois as estradas eram pessimamente mantidas e inadequadas para aviões, visto que as brenhas densas não propiciavam terrenos seguros aos desembarques, de resto, não custava lembrar: não existiam aeroportos na cidadezinha. A única maneira de se transitar era por intermédio de barco ou navio, todavia o risco aquático sempre rondava os que para lá se dirigiam. Eram altas as chances das embarcações se perderem, afundarem, sofrerem pirataria etc. Só um navegador lobo do mar, demonstrando valentia satisfatória, tendo bússola eficaz e uma embarcação resistente suportariam eventuais avarias. Geralmente, o discurso meritocrático legitimado nos âmbitos capitalistas traz consigo atuações simbolizando um embaraçoso pouco-caso, discernimento que o nosso patrão Xisto, igual a uns e outros defendendo valores economicamente liberalescos alimentavam contra a atuação dos próprios funcionários, sejam muito escolarizados ou desprovidos de estudos. Esses primeiros são equiparados aos empregados públicos (professores, médicos, enfermeiros, policiais, garis), trabalhadores necessários a população, dados as atividades de utilidade pública, acabavam burocraticamente subordinados aos chefes sanguessugas, os vulgos servidores marajás. Perguntou-me uma vez, ironicamente, Carlos Frederico, compadre coetâneo e com aspirações relativamente parecidas com as quais pensei nestes intrigantes tempos hodiernos.

 Cansado do trampo, José Eduardo? Questionava-me esbanjando ironia.

  A estafa traz lucro, parceiro. Já o ócio, prejuízo, retruquei demonstrando ares sociológicos.

 -Verdade, explicava Cafrido, como se tentasse lecionar lições enigmáticas, aproveitando-se de tanto Blábláblá que adormeceria quaisquer inteligências apáticas, independentemente se demonstrassem fascínio real. O desemprego, veja você, é o fenômeno mais aterrorizante deste complicadíssimo mundo laboral, meu amigo. Não sei o que seria de nós, caso a fábrica acabasse.

  Tentei responder: provavelmente o mundo entraria em colapso. Decerto sabes que esse lugar produz qualquer coisa, desde os rudimentares bens primários, execrados pela economia contemporânea, até bens de consumo, esses mesmos que depois compramos nos shoppings, supermercados, entre inumeráveis estabelecimentos comerciais. Transformam-se matérias-primas brutas: aço, carvão, madeira, minério, cana-de-açúcar, soja, carne… abastecemos o planeta inteiro! Somos bem remunerados, temos direitos assegurados, logística correta e justa.

 - Larga a ingenuidade, rapaz! Esqueceste nossa comunidade, as paralisações demoradas, plenárias históricas. Enfim, todas as lutas travadas que permitiram obtermos conquistas valorosas? A verdade é única, camarada: Vivemos na frequente batalha do cartão contra o patrão. Bater o ponto tornou-se uma obrigação humilhantemente cotidianesca, não temos nenhuma ferramenta tecnológica registrando nossas frequências, exceto folhas recebendo assinaturas escritas, usando-se canetas esferográficas: “primeiro e último nome”, chamas isso de logística? O lógico virou ilógico. Cafrido manifestou concisa indignação.

 — Talvez estejas certo, mas o sr. Xisto continua sendo uma honrável liderança, além de generoso chefe. Reafirmei, inseguro, os meus dizeres.

— Besteira! Quem poderiam ser os cidadãos supostamente honrados, figurões ditos exemplares, personalidades defensoras da moral e dos bons costumes, intelectualmente qualificados para julgarem as laborações humanas? Se pudessem ser à imagem e semelhança de um simples Ombudsman, entretanto a conjuntura segue ruim, contratar um profissional desse perfil custaria pecúnias a mais aos orçamentos da fabricação, podemos considerar que o dito mandante a quem realças elogios é incompetente, hipócrita, cruel e patético.

 Nada disso afetava suas ácidas considerações na posição de observador dos fatos, pensava consigo decididamente. A retumbante intelectualidade resoluta que concedera a si mesmo, também inspirava bravura cautelosa, entretanto, a discussão mantida com Cafrido acabaria felizmente repensada. Em um primeiro momento, talvez lá pelas três e cinco horas da tarde, ficamos fortalecendo uma reflexividade harmoniosa, serenando tempestades comportamentais, não havia necessidade de instigar conversas longamente estressantes.

De certa forma, Xisto gostava de receber estrambólicos tratamentos, sustentados nessas estúpidas formalidades, reforçando apreço incansável pelas gabações conquistadas pelos vantajosos negócios, tanta obsessão o afastava paulatinamente das bem-proporcionadas relações trabalhistas hipoteticamente almejadas, cada dia os que trabalhavam metendo a mão na massa, expelindo suores fortes, transparecendo formidável comprometimento setorial, seguiam se considerando largados, o descontentamento laborativo virava um preço a pagar, contudo, mantinha-se no porvir.

 Para agravar essa situação desconfortável, as relações amigáveis entre mim e Cafrido pioravam a conta-gotas, o sabe-tudo, chatíssimo cabeça-dura fracassava em disfarçar sua antipatia inevitável quanto ao chefão, é verdade que aquelas futilidades, detestáveis estupidezes, jamais fariam trabalhadores sensatos simpatizarem sinceramente com Xisto, achava eu prudente dar uma trégua ante ao circunstancial desapontamento generalizado, fato que, ficaríamos brigados durante meses em sossegar aqueles crescentes descontentamentos da classe trabalhadora, Carlos Frederico deixava claro não ter alimentado esperanças de, pelo menos, negociar temperança ou, no mínimo, a imparcialidade do controverso morubixaba, esse, por sua vez, demasiadamente guiado pelas premissas da teoria economicista. Decidia frequentar reuniões somente quando necessitava examinar relatórios, momento em que verificava riscos para identificar dificuldades gerenciais ameaçando rendimentos, raramente se reunia com funcionários do setor financeiro, nunca obteve garantia de que trabalhando naqueles modos manteria incólume o patrimônio dele, naturalmente haveria métodos e estratégias naquelas decisões. Para administrantes dinâmicos, pessoas consideradas exemplares sob o ponto de vista gerencial, o perdularismo é um arroubamento gravíssimo, mancha reputações especialmente a da chefia.

 Xisto e Cafrido se diferenciavam nas questões teoréticas, a mamãe observava as querelas intelectivas ali feitas, pensando intrigada, “Zédu e Carlos Frederico, conversam tanto sobre essa chatice politiqueira, queria que dessem um tempinho, no Brasil, política, futebol e religião não se discutem!” Recebeu consentimento entusiasmado da doméstica, ambas visivelmente de saco cheio daquilo, apesar disso, surgiria outra adversidade inoportuna. Teve como resposta um inapelável “não é da sua conta”, trazendo um clima deveras estressante, atenuado pela tentativa de sair à francesa da própria Leide Vânia, porém o quiproquó mal continuou, graças a Deus! Pois Dona Nadi empenhou-se, exitosamente, na momentânea dedicação que debelou o avanço da pequena barafunda criada pelo colega do filho da sua patroa. Nadi pensava em proteger nossa querida família das enrascadas produzidas nos rebuliços surgidos em instantes cotidianistas. Pedia jeitosamente para ficarmos calmos, dizendo que estávamos fora de órbita.

Mamãe se preocupou com o ritmo da prosa que levávamos durante aqueles tensos momentos, fato é que precisei relaxar, respirar fundo por rápidos segundos. Parei para pensar, retornei minhas atenções a Carlos Frederico, estabelecendo outro diálogo com ele. Demonstrar-lhe-ia franqueza genuína, se é que vocês me entendem. Voltei-me mostrando o rosto, esbocei um sorriso amarelo. Cafrido surpreende-me, ele me faz uma pergunta quase que diretíssima, parecia querer esclarecimentos definitivos vindos de mim mesmo. Tipo algo que pudesse viabilizar respostas prontas, mas não proporcionando enunciações néscias.                            

 — Por que não fizeste pós?

Questionava-me se referindo as especializações acadêmicas, afinal. Necessitei ser claro quando pude reforçar minhas opiniões quanto a chamada pós-graduação Stricto Sensu. Suspeitei ao longo do tempo, firmemente, dos benefícios empregatícios dela e lembrei a Cafrido um detalhezinho curioso para que também refletisse acerca da questão que ele apresentava a mim.

 Perguntei logo, respondendo diretamente à pergunta anterior, emendando outro questionamento.

— Sabes da desconfiança que nutro quanto aos cursos universitários, nem sequer me propus a realizar uma pós-graduação, os colegas continuaram guardando seus diplomas nas gavetas, nunca avançaram financeiramente. Tu, do mesmo modo que eu, usufruis de um canudo de papel, te conferindo qualificação sociológica, quase ninguém sabe da homenagem feita por teus pais a Karl Marx e Friedrich Engels. Enfim…

 Enquanto tentávamos superar nossas divergências, Cafrido, camarada de longa data, seguia se esforçando para nos trazer serenidade, querendo que superássemos essas briguinhas indevidamente desconfortantes, mostrou o polegar levantado para cima, soltando sorrisos fugazes, falando ligeiro para mim: “Sossega o facho! Irmãozinho. Calma!”

 Com os ânimos normalizados pudemos descansar, aproveitando o restante da tarde, repousamos em nossos lares, pensando logo no amanhã, faltamos um dia de trabalho, não existia possibilidade de abono, já que não conseguiríamos motivos plausíveis justificando a falta cometida. Fomos trabalhar no outro dia, cumprimentei-o, rubriquei a ficha de frequência e trabalhei. Terminando aquele dia da mesma forma que dos outros anteriores: Jantar, televisão e cama. Dia seguinte, retornei à atividade diária. Confesso ter sido atormentado por pressentimentos ruins. Sentimento esse compartilhado, na janta, com minha mãe. Eu lhe disse.

— Mãe, acho que coisas diferentes acontecerão amanhã. Uh!

— Mocinho, pareces angustiado, tua fisionomia de agora manifesta uma inquietude mal resolvida. Ficaste bastante impressionado por causa da falta de hoje no emprego? Amanhã será outro dia! Te encontrarás com Carlos Frederico no expediente e vocês colocarão a mão na massa, conforme vocês fizeram em épocas passadas. Respire fundo, sopre pela boca. Tudo dará certo. Se Deus quiser! Recuperarás a tranquilidade em alguns minutos. Força!

 Vejam só! Minha mãe tinha razão! Uau! Realmente as respirações curtas me deram relaxamento suficiente. Terminei de jantar e bebi um copo de leite, sendo isso a ceia daquele dia. Dormi relaxado. Já pensando no encontro com Cafrido quando estivéssemos lá na fábrica.

 Finalmente encontrei Carlos Frederico, ele se organizava ao começar o expediente dele, nós dois chegamos cedo para bater o ponto, depois de iniciarmos os trabalhos fomos surpreendidos por um relevante anúncio comunicado em alto e bom som que, imagino eu, foi bem escutado em todos os lugares da fábrica.

— Senhores. Às dez horas da manhã desta sexta-feira, o sr. Xisto fará um importante comunicado ao operariado. Estejam todos presentes.

— O que nosso maravilhoso patrãozinho aprontará agora, debochou ironicamente Cafrido em um audível sussurro.

 Eis que ante vários operários, surge o sr. Xisto, acompanhado pelos seus secretários, além de uma certa comitiva com homens trajando jalecos brancos, uns vestindo o tradicional terno e gravata. Pareciam cientistas, seguranças, executivos importantes, nessa ordem. O chefe iniciou sua fala adotando velhos protocolos formais.

— Antes de começar, peço alguns aplausos, os quais ofereço a todos que destinaram suas forças para erguer esta fábrica tão respeitável.

 Seguiu-se uma longa saraivada de palmas. Acompanhei-a encafifado. Por que havia tanta cerimônia?! Bastava resumir tudo. Confusão à vista? Ninguém conseguiria saber, muito menos eu. Infelizmente, desencontrei Cafrido que deve ter procurado um canto mais confortável.

“Prezados, agradeço o empenho empregado nesses anos. O trabalho dignifica o homem, afirmou Max Weber. Concordo em absoluto, ainda assim, acredito piamente que descansar é direito sine qua non dos seres humanos. Confiem! Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo, fez o que? Descansou! Reflitamos…”

- Não entendiam nada! Não entendiam nada! A massa ouvia aquelas deslumbrosas palavras, calmamente, olhares fixos, silêncio total, semblantes quase inamovíveis. Tolos! Tolos! Mentes tolas! Se a inteligência deles é débil, quem será pelos incautos? A OIT? Duvido. Porcaria!

 Xisto parava durante curtos instantes, a cada pausa concretizada ovacionavam-no. Reverências falsas, digo logo! Notava-se que os limites do fastio foram desrespeitados, lhes pouparei das declarações derradeiras. São irrisórias.

 Ouve-se inesperadamente: “Tragam-na!”

Surgia defronte à multidão proletária, uma estranha bugiganga, cuja imponência era inquestionável. Recordo perfeitamente: Tinha quatro metros de altura, em cima havia duas antenas, cinco lamparinas vermelhas semelhantes a “sinalizadores”, além de um enorme botão redondo detrás dela. Ficamos bestificados! Os seguranças formaram cordões protetores no entorno. O presidente Xisto e sua comitiva acompanhante se retiraram em seguida. Nosso superior retornou ao púlpito, proferindo um sucintíssimo: “Estão todos liberados”.

 Cheguei à minha casa, a pequenina caixinha de correio guardava um estranhíssimo envelope branco. Eu o apanhei e entrei para lê-lo.

 “A fábrica de Xistopólis e seu presidente agradecem seus serviços empregatícios. Continue conosco. Desfrute seus ganhos comprando nossas mercadorias”.

 

Pensei imediatamente, aquilo somente poderia significar algo: Carta de Demissão. Eita! Demitido? Eu? Como assim? Será que o restante recebeu recado idêntico? Resolvi esfriar a cabeça, cumprir aquela tríade cotidianista citada ao começo deste relato, me obriguei a tentar dormir. Admito, a insônia venceu naquele momento.

 Dia seguinte fui “trabalhar”, afinal precisava esclarecer o tal aviso. Logo fiquei diante do caos! Multidões enormes fustigavam os portões da fábrica. Os Guardas faziam total proteção. Ponderei de imediato: “Loucos, querem invadir”. Carlos Frederico estava lá, eu o vi, depressa tentei abordá-lo.

— O que aconteceu? Por que querem entrar a qualquer custo?

— Ainda questionas? Fomos demitidos! Saímos com uma mão na frente e outra atrás! Agora, aquela maldita máquina fará tudo! Imaginei que o velho Xisto preparava alguma surpresa contra nós.

— Então, o que pretendem fazer?

 Cafrido não teve tempo para responder. A aglomeração e quem ficou próximo dela levou uns borrifos venenosos contendo spray de pimenta. Quanta truculência! Muitos foram lesionados, pessoas se sentiam sufocadas, desfaleciam pelo chão! Bati em retirada a tempo de preservar minha integridade física. Um misto de medo e desespero correu-me nas entranhas. Essas cenas traumatizantes, piores que a novidade demissionante, fato também pertinente, me impediram de fechar os olhos e repousar o cocuruto naquela madrugada.

 Os dias seguintes trouxeram mudanças substanciais. Volumes de produção da fábrica cresceram exponencialmente. Ganhos exorbitantes eram obtidos nos mercados mundiais de ações, ultrapassando valores rentáveis. A cidade inteira vibrou com o novo dinamismo das coisas. A “patrãozada”, nem se fala, certamente bebia taças de vinho em comemoração. Pessoas contavam lendas da rara maquinalidade causadora dos incríveis êxitos conseguidos. Quem ousaria afrontar essa nova realidade? “Atrasados, trogloditas, inconformados, talvez… Consequências são diluídas no tempo, que sim, cura feridas.

 Estando eu e outros companheiros desempregados, suportávamos aquela avaria recente. Verifiquei a correspondência, achei um comunicado que solicitava a presença dos funcionários demitidos para uma espécie de reunião emergencial na velha sede do sindicato. Matutei me divertindo dentro da minha própria consciência: Sindicato? Ele ainda existe? As máquinas mataram sindicatos! Decerto queriam velá-lo.

Sem nada a perder, quis participar. Os rostos da turma de outrora ficaram irreconhecíveis: Uns revoltados, resignados. Poucos tinham esperanças. Nossa reunião começou pontual, vi Carlos Frederico sentado na mesa diretora, acenei a ele, só que não recebi pronta resposta, pois Cafrido deveria dar satisfações aos que lhes davam ouvidos.

— Esta reunião tratará dos últimos acontecimentos envolvendo demissões em massa, autorizadas pelo sr. Xisto, dono da Fábrica de Xistopólis. Assim o secretário-geral iniciava os protocolos.

Seguiram-se vários discursos, muitos propuseram o diálogo, outros o enfrentamento direto.

— Como esta geringonça ousa roubar nossos empregos?! Bradavam.

 Entediado com a falta de soluções, levantei-me da cadeira e falei.

— Partícipes, sei que o quadro é demasiado periclitante, contudo, palavras e ações têm efeitos distintos. É verdade que a funesta engenhoca trouxe problemas, só que também vieram avanços admiráveis. Um francês, Augusto Conte dizia: “Progredir é conservar melhorado”. Enfiem nas suas mentes angustiadas: O progresso transforma a humanidade enquanto a humanidade humaniza o progresso. Devemos ter isso em mente. Sigamos nossas vidas. Vamos indo. Lá acertaremos as contas. Dei o recado, causando inquietações manifestadas em conversas paralelas que lastimavelmente inviabilizaram o evento.

 Eles me ovacionaram! Aplaudiam feito malucos sem saber qual o sentido do discurso realizado. Perdoei-lhes, nem eu mesmo sabia daquilo dito. Juro por Deus! Seria charlatanismo, loucura, populismo?!

Encontrei Carlos Frederico. Ufa! Decidi escafeder-me dali rápido. O encerramento havia se dado efetivamente.

 O colegiado inteiro mobilizou-se. Estandartes gigantescos, gritos de guerra, gestos excêntricos, palavras de ordem etc. A revolução proletária sonhada por Marx enfim aconteceria? Ao passo que jamais assenti vieses marxistas ou coisa parecida. Rumamos a fábrica, conscientes dos objetivos em jogo e desacreditados num eventual sucesso.

 Passamos pelas entradas principais com relativa facilidade, elas estavam completamente indefesas. Tivemos sorte, confesso. Enveredamos por um atalho apropriado, alcançamos a sala do sr. Xisto, entramos nela, forçamos as portas, conseguindo abri-las, dispensando certas ações de etiqueta, os manifestantes deram de cara com o questionável prócer.

  — O que fazem aqui?! Surpreendeu-se o magnata.

— Calhorda! Calhorda! Calhorda! Gritávamos em coro.

 Invasão! Invasão! Homens venham cá! Os seguranças chegaram, no entanto, preferiram cruzar os braços, talvez amedrontados pelo volume de pessoas amotinadas. Encurralado, Xisto tentou outro estratagema, demonstrando claro desespero.

— Quanto querem? Façam seus preços!

— Nos comprar? Nunca! Onde ela está?! Os dizeres denunciavam a voz de Carlos Frederico.

 Berros pediam taxativamente: “Destruam-na! Destruam-na! A partir daquele instante, fiquei impassível, gelei, parecendo uma pedra. Barbaridade! Xisto implorava-lhes clemência. Dentre reles segundos, o aglomerado saiu dali e foi ao encontro da máquina. Tão somente os acompanhei, lutando para conter tensões excessivamente descontroladas.

— Olhem!

 O pessoal todo se impressionou, ficaram maravilhados! A bugiganga era realmente uma MAQUINALIDADE RARA! Jamais viram coisa diferente. O botão, o material reluzente, o tamanho, a velocidade, a eficiência! Algo possivelmente vindo do céu! Dádiva! O deslumbre aplacou os furores repentinos. Jesus Cristo... De repente, a máquina desenvolveu estranhas formas, ganhou vida e corpo humano: pernas, mãos, braços, cabeça! Inclinou-se para baixo. Restava que falasse! E aconteceu! Crê em Deus pai!

— Caríssimos. Estive resguardada nessas semanas, desejando ansiosamente contatá-los. Tenho inteira ciência das perdas sofridas por vocês. Acreditem: máquinas e homens podem conviver bem. A evolução é acontecimento fundamental, todavia, será excludente e cometerá grandes injustiças, caso insistamos em negar o óbvio.

— O que é o óbvio? Inquiri recuperado da estupefação.

— Que neste planeta, o avanço é fruto das potencialidades dos indivíduos. O coletivismo ideológico contradiz a natureza humana. Paradigmas coletivistas dão deliciosos gozos aos eruditos “revolucionários”. Idealistas tolos que almejam superar a praticabilidade da natureza vivencial do Homo Sapiens que necessita viver a realidade concreta, além de simplesmente existir, já aconselhava Oscar Wilde.

— Defendes que baixemos a cabeça para o capital? Carlos Frederico intrometeu-se irritado no diálogo estabelecido.

— Alto lá, te diria sim, mas não o capital monopolista que domina as cadeias produtivas, servindo a propósitos únicos de grupos gananciosos. Aliás, quem detém privilégios é inimigo automático do progresso. Busquemos a cooperação, o apoio mútuo solidário. Toda pessoa é suficientemente autônoma para viver da maneira que achar melhor. Vivência em conjunto precisa ser um exercício para a liberdade, não para a tirania.

 “Bravíssimo, bravíssimo”, aplaudiam os trabalhadores. Entretanto, a discussão prosseguiu.

— E o patrão? Indagou Carlos Frederico, referindo-se ao sr. Xisto, trancafiado no andar de cima.

— Ignorem-no, ora bolas. Abaixo ao poder!

 A empolgação tomou conta, virando revolta incoercível. Voltamos a sala da presidência, derrubando quaisquer obstáculos. Xisto e os seguranças hesitaram capitular. Bravo! Cargos de direção seriam repensados, caberia ao trabalhador fiscalizá-los. Dava-se uma pausa, por um instantinho, em tópicos controversos: impostos, taxas, umas hierarquias. Presidentes, diretores, autoridades. Gente persona non grata. Confiávamos que a maré viraria, era cômico dizer isso, porque o rio de Xistopólis despertava sinceras angústias na população, dado o excessivo quadro de poluição constatado nele. Dane-se! Avante! Podia-se, sim, alimentar expectativas esperançosas.

 Finalmente se tornava possível executar diferentes experiências laborais. A máquina trabalhava durante a semana e descansava nos finais de semana. O poderio produtivo da fábrica gerava coeficientes extraordinários. Grupos sectários desempenhavam um cooperativismo livre, se transformando em múltiplas associações. Conseguia-se coabitar pontos de vista divergentes.

 Dias se passaram. Encontrei-me com Carlos Frederico na rua, o cumprimentei fortemente, dando-lhe um longo abraço. Ambas as línguas roçaram, evitamos proferir comentários inconsequentes. Acalmamo-nos, a prosa foi breve. Ufa!

— Mano, por gentileza. Diga-me em poucas frases: Estaríamos no fim da história? Hã?!

— Zédu, pergunte a si mesmo. Respondeu Carlos Frederico, apresentando uns ares impacientes.

Olhei a face de Cafrido, demonstrando tranquilidade quanto aos entendimentos a serem expressos, mas diria que estive confiante. Davam-me vontades questionadoras, umas dúvidas buliçosas. Perguntá-lo-ei definitivamente, será que lembrou de Francis Fukuyama?

Carlos Frederico manifestava impasses intelectivos para desenvolver as ideias que sustentou nesses últimos tempos. Pelo que conheci de sua história, o próprio teve como nome que serviu de tributo aos teóricos fundadores do socialismo científico, disso sabíamos desde as épocas passadas de camaradagem. Isso posto, empregávamos foco debatendo pequenas importâncias.

- Reconheço que a menção feita ao filósofo Nipo-estadunidense pareça confusa na leitura de quem apreciar as diminutas elucubrações mostradas. Não nego o desalento com os manejos teoréticos aplicados pela intelligentsia nacional nas fundamentações teóricas dela, no que concerne aos estudos realizados de saberes humanísticos, há os que nomenclaturam esses conhecimentos de ciências humanas. Haveria linguistas orgulhosos se considerando de “humanas” ou manifestando opinião diferente? Francamente, haja polêmica! Eita! Insisti numa tentativa que estabelecesse nova conversação. Disse-lhe repentinamente: Não estou agarrado aos dois lados, tampouco aos ladinhos. Dificilmente lhes endossariam, evitando bajular retóricas politiqueiras. Cafrido rebateu brincando:

— Ah! Companheirinho. Tens problemas com direita e esquerda? Desde quando desenvolveste dislexia? Não tinhas formação em letras? Tanto faz! Saiba que quem conta um conto, aumenta um ponto.

 Respondi tranquilamente.

 — Ué, fosse este conto uma narrativa demasiadamente sincera, debateríamos intelectual e reflexivamente satisfeitos deduzindo qual seria o próximo final da história. Puxa vida... O final dela, só o tempo revelará, mas, veja, pense bem comigo, um tique-taque repetitivo entediaria muito a consciência humana. Estaríamos muitíssimo impacientes? Muita calma nestas horas, ah!ah!ah!  Em todo o caso, é uma necessidade acompanhar a temporaneidade histórica.

— Será? Acompanhemos.

 

                                                                                                                                             Claus Prolhoti

                                                                                                 

 

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