Populismo de Direita: A Vassoura, O Caçador de Marajás e a Metralhadora
Varrer a corrupção, expurgar as instituições, combater o comunismo e o esquerdismo, recuperar valores perdidos numa sociedade adoentada. Propostas soltas, mas com impacto avassalador na opinião pública. É provável que possamos associá-las a nomes da política nacional, antigos ou novos. Para ensejar a minha provocação, cito estas três personalidades históricas : Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello e Jair Bolsonaro.
Ué, o que há de comum entre esses personagens?
Eles viveram momentos distintos da história política brasileira: República
Populista, Nova República, Redemocratização... Lembremos a
frase de Marx (peço que larguem suas eventuais opiniões acerca do mencionado
senhor e se concentrem na sentença): "A história se repete, a primeira vez como
tragédia e a segunda como farsa." As tragédias gregas nos deixaram o
escopo do herói trágico. Um personagem de elevada reputação que é punido por
desafiar o destino ao qual lhe foi reservado.
Jânio pagou
para ver. Alçado à presidência da república com votação recorde, sentiu-se o
próprio Édipo no auge da governança. O plano de governo apresentado na campanha
eleitoral de 1960 era simples nem sequer o esmiuçarei. Sabem por quê? Ele está
descrito no primeiro parágrafo, cabe apenas mencionar a vassourinha, emblema do
chamado janismo. Devidamente empossado, o histriônico líder paulista enfim
esmoreceu ante a realpolitik. Sem força alguma para aprovar projetos no
parlamento, governou sete meses e renunciou. O governo de JQ acaba encoberto
pelos eventos que sucederam a derrocada dele . Um vice-presidente suspeito
ascende, crise política e econômica ficam bem agravadas. Final da história:
Golpe civil-militar em 1964.
Collor
ganhou o segundo turno da eleição presidencial de 1989 contra Lula. Seu epíteto
Caçador de Marajá lhe rendeu valiosos dividendos de propaganda. Justiça
seja feita, o programa econômico do ex-governador alagoano pretendia
reverter o contexto caótico da famosa década perdida, defendendo medidas
ousadas: abertura comercial, privatizações, cortes orçamentários, diminuição do
papel do Estado na economia. No entanto, ninguém vence eleições falando
verdades. A contradição da figura de Collor: cacique político, herdeiro de uma
oligarquia estadual com o discurso que apresentava, nada afetou sua
popularidade durante o pleito e nos idos iniciais da gestão. Enfrentando,
semelhante a Jânio, os problemas de governabilidade, ainda assim tentou reverter
parte dos arcaísmos e gargalos produtivos do país. Já imerso em suspeitas de
corrupção, bastou um Fiat Elba obtido através de propina para que o moderno e incorruptível Indiana
Jones tupiniquim fosse defenestrado.
Bolsonaro disputou o certame de
2018 e venceu. O presidenciável confessou abertamente que "não sabia
nada de economia", tendo opiniões polêmicas quanto aos temas
espinhosos do âmbito de costumes, declarando-se conservador. Seu grande mote
foi o fato de não ter tido envolvimento em casos de corrupção, o que o tornou
raridade no quadro democrático brasileiro. Adversário inconteste das esquerdas,
do comunismo internacional e do politicamente incorreto. Filiou-se a um partido
nanico, posicionando-se como contraponto ao establishment de Brasília. Sua
estadia no congresso provocaria inveja em qualquer iniciante na vida pública: 3
anos de vereança e 27 anos de Câmara Federal. Total: 30 anos.
A contextualização,
indubitavelmente, influiu e influi na ascensão populista. Jânio se beneficiou
das falhas do plano de metas de JK, pois a emissão de papéis públicos e o
endividamento externo aumentaram as expectativas inflacionárias. Collor
deparou-se com um país declaradamente em moratória e também com inflação
altíssima. Bolsonaro esteve diante de uma situação menos grave sob o ponto de
vista dos indicadores macroeconômicos. Em contrapartida, ver-se-á diante do
dever de aplicar ajustes fiscais, travar o perigosíssimo aumento da dívida
governamental, além de promover reformas que destravem a
produtividade.
Jânio, Collor e Bolsonaro foram representantes
do que chamaríamos populismo de direita, mesmo que eles, no fundo,
desvencilhem-se definitivamente desta particular classificação. O viés
demagógico/populista é entranhado no binômio oposto Elites x Povo.
Dependendo do discurso, o "papel de elite" pode sofrer variações.
Nesta situação, abarcaremos simplesmente as elites políticas, intelectuais e
econômicas. O engenho retórico é enganosamente descomplicado, resumi-lo-ei em
cinco aspectos sucintos e claro, revisáveis.
- Apelo ao combate à corrupção que
mira numa suposta "purificação do sistema político". Os meios
pelos quais isso realizar-se-á não se enquadram, necessariamente, em
preceitos da ortodoxia institucional. Vide os Bilhetinhos de Jânio.
- Rejeição total aos valores de
esquerda, não significando, porém, uma adesão ao liberalismo econômico. O
histórico estatista de Bolsonaro prova isso.
- Flerte com o personalismo. A
descarada ideia do "salvador da pátria" que resgatará o povo dos
inimigos.
- O lema da ordem pela autoridade
moral: "Tostão contra o Milhão", Bolsomito,
Caçador de Marajás.
- Uma evocação do patriotismo.
Difere-se de um nacionalismo étnico, econômico ou cultural. A simbologia
transmitida pelo verde e amarelo exemplifica essa nuance. Faz-se a
"defesa da pátria" e não a "defesa de uma concepção de
pátria".
Certamente essas
minúcias podem e devem ser aprofundadas. A principal reflexão deixada é que o
populismo de direita enquanto método de ação política-eleitoral mantém-se
extremamente rentável, resistindo as lições e traumas históricos. A moléstia é
antiga, mas o antídoto renova-se. Caso queiram rir para não chorarem, pensem
nisso: Já tivemos a vassourinha, o caçador de marajás e recentemente louvamos a
metralhadora.
Claus Prolhoti
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