SOBRE SEXTAR
Existe um desconhecimento real sobre as origens históricas e antropológicas dos famosos dias semanais, muitas pessoas os consideram como sendo apenas mais um elemento do tradicional calendário gregoriano, instrumento pelo qual é sistematizado o tempo cronológico no qual a história das civilizações e das suas culturas acontece. Um dia especial para pensar seria a sexta-feira, cujo nome tem origem etimológica na expressão latina Dies Veneris (Dia de Vênus, deusa romana do amor).
Trata-se do quinto dia semanal, geralmente o último considerado útil, funcionários trabalham, serviço público e empregadores pagam salários, colegiais estudam, entre outras responsabilidades corriqueiras são cumpridas, curiosamente, ele acumula percepções tanto negativas quanto positivas quando está associado ao número 13 (treze) representa crendices perturbadoras que ultrapassaram séculos permanecendo vivas no imaginário coletivo mundial. Já se tornou notório o famigerado azar preocupante que as tais sextas-feiras treze supostamente trazem para quem transgride as superstições taxativas dessa aparentemente funesta data, desde o inofensivo gato preto até ao guardachuva aberto em casa. Filmes, séries televisivas, romances, peças teatrais, comédias ganharam simpatia geral, conseguindo extrair dela uma envolvente logicidade narratológica, obtendo reconhecimento positivo dos críticos e popularidade mundo afora.
Outros dias da semana consagraram alguns momentos representativos em que a humanidade e narrativas culturais terminam amalgamando religião, política, guerras, costumes, tradições etc. O domingo representa tal juízo, por exemplo, nesse dia conta-se que Yeshua (Iesus em latim ou Jesus na língua portuguesa) ressuscitou após morrer crucificado a mando do procurador romano Pôncio Pilatos, subiu aos céus, posicionando-se, conforme descreve o derradeiro versículo dezesseis do décimo nono capítulo do evangelho segundo Marcos, “a direita de Deus.” (Marcos 16:19).
O sábado também representa uma simbologia cultural forte. Antes da Páscoa Cristã, originalmente dominical, a tradição católica romana celebra o Sábado de Aleluia ou simplesmente Sábado Santo, etapa que marca a véspera da ressurreição do Cristo, enquanto na fé judaica celebra-se o Shabat. Judeus e cristãos bem informados sabem que o sábado marca a consumação do relato cosmogônico judaico-cristão narrado nos primeiros versículos do livro Gênesis, texto comum às escrituras sagradas dessas duas religiões. Javé descansou no sábado, sétimo dia, depois de criar o mundo em seis dias, logo nota-se tal particularidade no considerado primeiro fim de semana. Hodiernamente surgiu a expressão Sabadou, gíria juvenil nascida nas redes sociais, representativa dos júbilos recreativos que os sábados proporcionam para esses mesmos jovens da hiperconectada geração Z.
Tendo-se em conta tais detalhes outrora mencionados, é formidável recordar o papel exercido pela sexta-feira nos ritos da fé islâmica. Islâmicos não realizam celebrações pascoalinas, sejam aquelas feitas em moldes cristãos ou mesmo a realizada na liturgia judaica. Aisha Stacey (2025) explica que a sexta feira “é um dia muito importante para os muçulmanos. É mais significativo e benéfico que qualquer outro dia da semana. É o dia em que os muçulmanos se reúnem para orar em congregação.”.
Essas curiosidades nos levam aos discernimentos considerando que a sexta-feira deveria ser mais bem quista pelos cidadãos comuns, porém essa má fama apresenta lado infundado. Jovens brasileiros reverenciam o popular neologismo Sextou. Diversas gerações gostam da sexta-feira, talvez porque ela anteceda os finais de semana nos quais ocorrem as festanças delas. Quem não recorda os versos de Cerveja, espalhafatosa música de autoria da dupla sertaneja Leandro & Leonardo. Várias escolas costumam dispensar alunos das aulas presenciais nos fins de semana, tornando a sexta o último dia do estudo presencial dos seus discentes, deixando funcionários usufruírem os finais de semana, isto é, recebendo um breve descanso da labuta praticada diariamente.
Certa gente necessita aprender o significado prático de Sextar, experimentando vivências prazenteiras, esquecendo momentaneamente as preocupações da vida cotidiana. Os hodiernos tempos, outrora pandêmicos, tornavam praticamente inviável qualquer atividade minimamente aglomerante, embora a juventude, ainda que correndo riscos médicos, tenha se aglomerado em divertidas, contudo perigosas recreações citadinas. Baladas, embriaguez, festanças, jogos de azar, disputas futebolísticas, entorpecentes, flertes românticos etc. Nelson Rodrigues, dramaturgo pernambucano, foi bastante certeiro ao salientar que a “sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica”. Sextar revela facetas humanas naturais: descansar, divertir-se, trair, mentir, cometer desvios éticos, ações xucras. Nada incomum.
REFERÊNCIA
https://aboutislam.net/reading-islam/understanding-islam/why-is-friday-so-special-formuslims/. Stacey, Aisha. 2025.
Claus Prolhoti
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