CAMISA VERDE-AMARELA

 

 “Hoje tem jogo do Brasil”, anunciava o comercial da programação esportiva na televisão

 - Menos de três nem comemoro.

 Papai parecia um cientista que estando convicto dos seus cálculos, antecipava os resultados. Demonstrando impertinência, não curiosidade, tive que intercedê-lo.

 - Pai. A Argentina foi muito bem nas últimas partidas, eles estão na ponta da tabela. Por que seríamos favoritos? Andamos mal das pernas nestas rodadas mais recentes.

 - E o que importa? Quem são os argentinos frente a nossa camisa? Todas as seleções tremem ao vê-la, dizia ele colocando o dedo em riste sobre o peito coberto pela vestimenta.

 - Por que tremem? Perguntei.

 - Sucumbem a tradição, ué.

 - Tradição?

 - Você logo entenderá, respondeu ele.

 Saiu triunfante e eu fiquei pensativo. Talvez tivesse sido a primeira vez que ouvi aquela palavra, mas o que ela tinha a ver com futebol? Seria o nome de alguma competição ou apelido de jogador? Provavelmente estaria relacionada a camisa verde-amarela. Ah! Já sei! Assim se chamava a loja onde o meu pai havia a comprado. Bom, pelo menos, achei que era isso.

 As ruas sempre se animavam durante os jogos da seleção brasileira. Confesso mesmo não entender certas coisas. As letras de música, por exemplo, eram bobas demais: “O Brasileiro lá no Estrangeiro/Mostrou o futebol como é que é”. Ora bolas, papai me disse que os ingleses foram os inventores do futebol, sendo assim, caberia a eles ensinarem tudo. Todos dizem ser o Brasil, o país do futebol, certa pessoa falou para mim uma vez que isso não passava de paixão.

 Essa palavra também fazia nós no cérebro. Lembrei o fragmento que li de um tal Nelson Rodrigues: “É por isso, eu lhes digo que a primeira missa, de Portinari, é inexata. Aqueles índios de Biquíni, o umbigo à mostra, não deviam estar na tela, ou por outra: podiam estar, mas de calções, chuteiras e camisa amarela.” Olha! Falou-se da dita Camisa! Eu sabia que conseguiria lembrar algo a respeito. Todavia, desejava saber qual relação existia entre todas essas questões, montei até uma equação: Camisa + Tradição = Paixão? Poxa vida! Permaneci confuso.

 O mano André chegou e então o interroguei, desejando ardorosamente mais respostas.

 - Irmão, por que os jogadores do Brasil usam camisas?

 - Porque fazem parte do uniforme deles. Além disso, simbolizam a paixão nacional.

 - O que significa “Paixão Nacional”?

 - Preste atenção: Lembras quando, mês passado, foste considerado o melhor aluno da classe? Nossos pais ficaram contentes, isto é, felizes. Ao vencer, a nossa seleção nos apaixona.

 - Então, ser apaixonado é ser feliz?

 - Sim, acho eu.

 - Os infelizes, portanto, são desapaixonados?

 - Às vezes. Estão mais para fracassados.

 - O fracasso é algoz da paixão, inferi.

 Dei-me por satisfeito ao obter alguns novos apontamentos que, no momento, achei necessários e continuei apostando num revés brasileiro naquela partida. Resolvi tirar a sorte, fui até ao quarto do papai, propondo desafiá-lo.

 - Vamos apostar?

 - Apostar o quê? Pirralho.

 - No jogo de hoje. Se o Brasil vencer, reconheço que estava errado em relação ao time. Se perder, o senhor admite seu equívoco.

 - Combinado. Ambos asseveraram com leves risadas.

 Nas alturas dos meus nove anos, competir contra a experiência adulta seria algo decerto temerário, petulante e sobretudo suicida. Meu pai levantou-se da cama, afagando meus cabelos negros, sem renunciar àquele velho sorriso abrejeirado. Enfim, os filhos também podem ensinar muito aos pais, todo filho é um segundo pai do seu próprio progenitor.

 Faltavam duas horas até o início do embate. Aquele singelo momento, me permitiu rememorar tais lembranças: Recordo bem, papai vestia apenas camisa verde e amarela e uma bermuda branca, Mamãe, que naturalmente desdenhava aos esportes, costurava suas lãs azuis. André chegou depois, ainda podendo acompanhar os minutos iniciais.

 Oito minutos, sete, seis, as ruas estavam enfeitadas pelos tradicionais adornos comemorativos. Paredes pintadas, bandeirinhas e bandeirões alçados nos pátios e janelas residenciais. E, não menos importante, os temas musicais.

 Nenhuma preocupação, somente boas recordações; vida prazenteira, infância aprazivelmente encantadora, pique-esconde, cabo de guerra, lendas urbanas falando do trem fantasma, do ladrão de órgãos; eis os desafios púberes com a maturidade alcançada.

 O juiz trilou o apito e a bola rolava, papai ficou concentrado. Mas e a aposta? Parecia que tinha ido para o espaço. Nenhum indivíduo ousaria interpelar quaisquer sons naquele instante. A paixão nacional, contudo, supre qualquer silêncio, neste ínterim, destaca-se a execução do hino nacional. Embora, verdade seja dita, deveria Osório Duque Estrada ter evitado desperdiçar tinta e papel com aquela segunda parte da letra, afinal, quase ninguém sabe cantá-la.

 Lembro-me, detalhadamente, dos lances daquela partida.

 - Vêm a Argentina atacando, bola cruzada na pequena área.... É Goooollllll.

 A seleção hermana marcava seu primeiro tento. Obviamente deixando a torcida canarinha apreensiva, porém, confiante. André, pessimista assumido, já predizia maus presságios, entre os quais, a derrota.

 - Chega a Argentina pelo lado esquerdo, pelota chutada de longe...defendeu, soltou o goleiro, olha o rebote.... É Gol.

 - Acabou, André levantou-se e saiu.

 - Caso continuemos assim, na certa será goleada, ponderava o comentarista.

  O primeiro tempo terminou dois a zero. Sinceramente, achei que cabia mais, azar deles. A segunda etapa trouxe alguma esperança. Papai beijava a camisa insistentemente, clamando aos deuses do futebol, um milagre.

 - Lá vem Brasil pela ponta direita, cruzamento feito para o atacante que bate de longe… resvalou na trave!

 Um breve, mas profundo suspiro misturando alegria e frustração emergiu, tomando rapidamente conta do recinto. Mamãe cravou: Se não fez agora, não faz mais! Tive que concordar e ainda asseverei: Quem não faz, leva!

— Não se pode ganhar todas, falou André, já distante de nós.

— Exceto as que são ganháveis, confirmei.

— Lógico.

— Estás comemorando antecipadamente, Sérgio?

— Pai, ignore-nos.

—Veja! Mais uma chance desperdiçada!

 Mesmo ele começara a resignar. Reza a lenda que o futebol não perdoa e é verdade. Finalmente, veio o castigo final.

— Avança a Argentina, cruzamento pela meia-lua. Disparou.... É Gol!

— Novamente Argentina. Tiro de longe... Golaço!

 Quatro a zero! Surra absoluta! Já eram onze horas em ponto e me recolhi a cama. Mesmo decepcionado, o velho fez questão de dar-me os simbólicos “parabéns”. Francamente! Aquilo soou um gesto tão supérfluo. Hum!

 No outro dia, perguntei ao André, quais razões levavam as pessoas a deixarem de vestir a camisa verde-amarela.

— Ora essa, pirralho. Perdemos. Não se deve usá-la quando a seleção perde.

— Queres dizer que acabou a paixão nacional?

— Do jeito que vai, certamente.

 Encontrar alguém trajando a camisa verde-amarela na rua de casa se tornou tarefa deveras infactível, praticamente homérica. Desde então, percebi que as paixões são como as camisas, embelezam, aprazem ou até mesmo vão para o lixo, sempre que não satisfazem o ego humano.

 

                                                                                                                                            Claus Prolhoti

 

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